Éramos quatro e desmontávamos viagem,
havia sintomas de esgotamento físico em dois dos viajantes e,
assim, o previsto transcurso pelo rio Parnaíba de Guadalupe a
Amarante, acabava em Floriano. Era onze de setembro de 2001 e a tranqüilidade
dos três dias de descida pelo rio quebrava-se com as torres, com
o terror.
No vinte e nove de agosto de 2003, apesar da noite saculejada no ônibus
entre Teresina e Uruçuí, eu estava animado para ver os
cerrados, a visita era parte do Primeiro Encontro sobre Cerrados: Ocupar
com Sustentabilidade. Supunha que a visitação se daria
em área que não conhecesse, posto que também supunha
conhecer a desolada terra nua que vira no amanhecer do dia pela estrada.
Mas, qual o quê, vira a terra nua, a imensidão do nada,
mas não dera a importância devida, parecia lógico
vê-la desnudada para a semeadura. Foi isso, parecia natural limpar
para plantar. Aconteceu, entretanto, da visita ocorrer na mesma área,
mas monitorada por mestre em meio ambiente e cada palavra, detalhe revelado,
passaram a imperar na realidade observada, as razões, as justificativas,
os erros, para compor do modo como se faz a destruição
dos cerrados, um ato de terror. Algum ânimo existente se transformou
em indignação: - Quantas torres de bacuris já derrubaram?
E de pequis? Aroeiras? Que valor dão à biodiversidade?
A terra arrasada tomou sentido, lembrou Hiroshima, a estupidez humana...
Não há prédios em ruínas, cadáveres
expostos, mas é como se até estes já estivessem
sucumbidos... Só a terra nua, a terra esgarçada... Só
a terra nua e um abandono por onde a vista dá, o barro do princípio
nas mãos de Deus tornado assim pelas mãos do homem...
Mais de oitenta quilômetros ininterruptos sem um único
pé de madeira de lei, arbusto, mato, rama, capim, até
se juntar com o céu no horizonte em miragem. E disseram-me que
isso não é nada se comparado ao que fazem em localidades
próximas.
Um “verdinho” ao redor de casas mínimas e poucos
galpões, um naco de florestamento embutido, pra não dizerem
que minto, eu vi. E entre outros comentários adversos, também
disseram que esse florestamento pode não ser o adequado, que
ele resseca ainda mais a terra, atuando diretamente sobre os recursos
hídricos da região, o que pode inclusive levar a secar
nascentes, brejos, lagoas, riachos, rios, o rio Parnaíba.
E vi outro tanto de áreas de terra revirada, moída, seca,
e redemoinhos, e redemoinhos, e poeira, e um sol inclemente. Vi noutras,
o feitio do arrastão de correntes, o cerrado deitado ao chão.
Vi também áreas desse cerrado destroçado queimado.
Vi serras ágeis desgalhando, moldando toras, acabando de trucidar
o cerrado. Vi o cerrado empilhado em última espera ao lado do
devorador final. Vi que não viram o cerrado.
Vi três emas, seus caminhares lentos na desolação...
Vi um gavião assentado ao chão, ao longe, imponente, solitário,
em meio ao nada, em negação da sina, a espreita caçadora.
E de tanto repensar as cenas buscando explicação, acabei
por estar satisfeito tendo em conta que tanto as emas como o gavião
estavam tão perdidos quanto os homens que assim deixaram a terra.
Vi maltrapilhos homens no causticante ofício de podarem mortos,
irmãos humilhados pela falta de escolha... Vi honoríficos
homens na defesa de seu quinhão em couraças e máscaras
que não escondem a miséria que impõem. Vi uma ouriçada
Uruçuí prenhe de falas imodestas em reclamos. Vi que a
construção do conto fabricado tem poucos defensores. Vi
que responsabilidade social passa ao largo em Uruçuí.
Vi que é impossível eliminar a pobreza só com falas
e, para isso, que é preciso que seja revisto em seu âmago
o processo de exploração econômica predatória
dos cerrados piauienses, que é preciso que se barre a grilagem,
que é preciso que se tome o homem da região e lhe ofereça
condições de competitividade e desempenho para sua incorporação
efetiva no processo econômico, que é preciso se encarar
com responsabilidade as questões ambientais.
Vi que há uma pressa intencional em se devorar o que há
de cerrado na região. Vi que qualquer voz que se levante para
protegê-lo, preservá-lo, precisa ser calada, ou abafada,
ou desqualificada, para um sossegado devorar. Vi quão estúpida
e irracional é a ganância. Vi que a violência praticada
é nefasta a todos. Vi que a diligente omissão social daqueles
que sabem e praticam atos abusivos nos cerrados está relacionada
à certeza da impunidade. Vi que os diligentes devoradores dos
cerrados são só devoradores, nada mais, que precisam ser
barrados, que lhes imponham limites e façam obedecer.
Vi quão comezinho é o homem travestido de desferidor de
destinos.
E para que não me vejam no acometimento de desleixo desmedido
igual ou maior que o dos devoradores de cerrados, pensando na possibilidade
de poder ainda alertá-los para a oferta de um pedacinho de cerrado
para os seus e meus netos que virão, peço, PEÇO
CLEMÊNCIA PARA OS CERRADOS.
E se não há entendimento plausível, esmaguem tudo,
se vergam ao jugo, respirem, comam, bebam tudo, devorem uns aos outros
como esplendor do que julgam construir... A torre que façam,
saibam, não se igualará a uma única aroeira surgida
ao acaso no nosso cerrado.
E porque não é necessário destruir os cerrados,
percebam que é atitude louvável e benfazeja a prática
da humildade, reconheçam que precisamos de tudo indistintamente
nessa nossa única e bela casa.
E se ainda não sabem os devoradores, eles podem ser lembrados
exclusivamente como os predadores irresponsáveis que um dia passaram
aniquilando tudo e a todos por aqui. Nesse tempo as couraças
e máscaras d´agora nada valerão, porque as torres
construídas em desvinculação com o meio ambiente
são vazias, podres.
E porque ainda há tempo, acordem!
George Andrade – Profº de História/Conselho da FUNÁGUAS.
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