Teresina sempre foi muito quente, mas o calor insuportável
por que passa agora, de cozinhar miolo, beira calamidade e reflexo enorme
tem sobre a qualidade de vida dos seus residentes.
Orgulha-nos o fato de Teresina ter nascido cidade planejada, um quadrilhado
inicial que se expandiu em ordenamento de bons resultados. A verticalização
da cidade também nos anima, enfim, uma magnânima cidade
se ergue, outra modernidade nos chega. Num dia já distante, notório
visitante observou Teresina numa perspectiva ecológica e a denominou
Cidade Verde. Alguns teresinenses reconheceram valor em tal afirmação,
promoveram-na e virou apelido. Isso nos orgulha porque, de certa forma,
coloca-nos na vanguarda ecológica que é de interesse mundial
na atualidade. Mas o que isso tem a ver com o calor de Teresina?
Incrível é se observar um comentário comum entre
nossos citadinos, de que o efeito estufa na atmosfera provocado pelo
processo industrializante é a causa. Isso nos leva a supor que
pensam e emitem uma causa distante para um não reconhecimento
seu de qualquer culpa, o que, infelizmente, não podemos demover,
porque não é a única causa. Do lugar que habitam,
parecem demovidos de responsabilidades, é como se nada pudessem
fazer para sua melhoria. É mesmo crível o dissimulado
envolvimento com a cidade, esperam alguém que a resolva, quando
o correto seria estarem mais presentes nas soluções encontradas
para a cidade. As falhas da construção cidadã refletem
a cidade que temos e queremos e, mesmo por isso, não devemos
crucificar os que não vivem e pensam a sua cidade, ou o fazem
com uso de paradigma inconseqüente. Mas que é tempo de saberem,
isto é, até porque nos desleixos das suas falas, reconhece-se
que Teresina está inserida e depende de um contexto ambiental
maior e, mais, porque alguém detona o meio ambiente lá
longe, não significa que devamos também fazê-lo
por aqui. Poderão insistir que não temos parque industrial
de monta para uma preocupação, assim, resta-nos observar
que contribuímos para esta elevação de temperatura
em Teresina, de outro modo.
Viver a cidade e repensar nossas vidas na cidade, pois, é de
importância capital para que sintamos menos calor. Os gargalos
do transito, construções com uso de tecnologia inadequada
para o ambiente climático da cidade, arborização
reduzida nos espaços público e privado, ocupação
desordenada na periferia, aproveitamento indevido da terra na área
suburbana e, principalmente, um baixo nível de educação
ambiental do citadino, são os maiores problemas encontrados e
aqueles que devem ser enfrentados de frente para melhoria do clima e
qualidade de vida na cidade. Percebem, agora, como planejamento, verticalização
da cidade e até o apelido que temos tem a ver com o calor insuportável
que vivenciamos.
O convite à reflexão que fazemos deve atingir a todos
indistintamente, porque é fora de propósito verificar-se
o registro de 43º C às 14 horas do dia 21 de outubro de
2003 na Av. Frei Serafim.
Tal marca é fruto também do motivo de fazermos o transcurso
dos 2 quilômetros da Frei Serafim entre sete a dez minutos em
horário de “ruch”, com milhares de carros a expelirem
gases tóxicos de suas descargas e a emitirem calor imensurável.
Não dá mais para se adiar a construção dos
viadutos da Miguel Rosa, Goiás, Pires de Castro e Coelho de Resende.
Uma só ponte sobre o rio Poti é pouco para se descongestionar
a cidade. Nos anos setenta perdeu-se oportunidade de se levar a Antonino
Freire até a Av. Maranhão, uma solução para
muitos dos problemas do epicentro da cidade. Poderíamos dizer
que um transporte coletivo eficiente resolveria todos esses problemas,
todavia, se se adia o feitio de simples pontes, dirá o sonho
de um metrô!
Pensemos no uso da matriz asfaltica nas nossas ruas... A linha energética
que passa por lado da rua onde possível proprietário teria
maior interesse em plantar para combate à insolação
e se vê impedido... O cimentado da Pedro II, o abandono, até
que invadam, do estacionamento do Albertão, o aeroporto localizado
na zona urbana, descalabros para um convívio... Não é
possível que depois de transferido, a área do aeroporto
não seja aproveitada para a criação de um parque
ambiental... Os oitizeiros da Paissandu, quanta agonia! O uso indiscriminado
de refletores e aquecedores em prédios, refrigério de
poucos... Cimentar jardins e quintais como solução para
não se ter a chatice de se limpar, adubar, aguar gramas, roseiras,
bananeiras... Se bem que aí temos a dificuldade do uso da água,
caríssima, onde bolso não chega, gravíssima, porque
dizem que poderá ser causa para desencadeamento de uma terceira
guerra mundial... O reduzido lote para implantação de
moradia na periferia, grande para cubículo provisório,
depois insuficiente para qualquer outro aproveitamento... O cuidado
dos sítios é obter estacas, plantar pouco e, sem dúvida,
colher quase nada... Ainda é comum observar-se em pleno espaço
urbano o fumaceiro de caieiras... Matar lagoas parece propósito,
não importa localização... O Poti, apodrecido,
ferido de morte, é fruto da nossa falta de interesse em vergonhosa
vida que levamos... E o tanto de lixo que produzimos, banquete pra urubus
nas ruas, mercados, terrenos baldios... Nosso espaço urbano parece
nos remeter à idéia de que não dependemos do meio
ambiente, o mérito é a abstração humana
ou a doidivana pretensão de poder tudo, um muro imaginário
impede de vê-lo para não lembrá-lo.
Será que nossa cidade ainda merece o apelido de Cidade Verde?
Uma solução para o calor na nossa cidade que tanto reclamamos,
passa pela conservação, pelo uso sustentável das
áreas verdes existentes e o replantio de qualquer espaço,
por diminuto que seja. Não é à toa o espaço
agradável que é a João Luiz Ferreira, o cheiro
e a brisa fria da mata na janela do ônibus ao passarmos pela curva
da Lindalva as cinco da tarde e, quanto mais prazeroso e bonito é
o que estão fazendo na Raul Lopes às margens do Poti.
Surpreendente é observarmos o riacho que supre o lago do zôo
ainda correndo a essa altura, atravessa a estrada para União,
margens devastadas, a cidade na sua cabeceira; o que fazer para não
vermos ele transformado em galeria o mais breve possível?
Para um artigo de jornal, não poderíamos emitir mais que
isso. A intenção básica é chamar atenção
que temos problemas ambientais, mas que eles podem ser minorados ou
resolvidos. Cuide do jardim e quintal de sua casa, converse com seu
visinho da importância de uma árvore para a melhoria da
qualidade de vida na nossa cidade... Enquanto isso, louvado seja a chegada
do inverno sem atrasos em dezembro.
George Andrade.
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