Estava eu a passeio em companhia de amigos e quando chegamos à
orla marítima em Luis Correia, todos sem exceção
comentaram da beleza e imensidão que é o mar... O encontro
com o mar sempre nos deixa extasiados, entretanto, chamou-nos atenção
o comentário despretensioso de Valdirene: - “Os homens
constroem piscinas em seus quintais e se acham tão graaandes”...
Em artigo anterior publicado por este Correio Aguapé, comentei
sobre a impressionante perenidade de riachinho que atravessa a estrada
para União à altura do Zoobotânico, apesar da mata
ciliar devastada, cabeceiras no Satélite e Piçarreira.
Previa a galeria futura que era o seu destino, não importava
mesmo que suprisse o lago do Zôo desse líquido essencial
que é a água. Em meados de dezembro do ano próximo
passado resolveram esgarçar a terra, o leito do riachinho à
margem da estrada. Eu convido a todos a darem uma olhada no que se transformou
o pequenino riachinho com as primeiras chuvas pesadas do nosso verão...
Vejam por seus próprios olhos o que a “inteligentcia”
humana é capaz de realizar. Vão à estrada para
União, vejam por seus olhos.
O nosso semiárido humilhado pela fome e sede pedia carros-pipa,
cartões “di araqui” que nunca chegam para aplacar
a miséria, e eis que vem um dilúvio e arrasa tudo... Vejam
por seus olhos a mesquinhez humana, aflições díspares,
a mesma sofreguidão.
Toda cidade de Teresina sofre pelas pesadas chuvas que caem... Vivenciamos
um janeiro incomum, sem veranico (dizemos, erroneamente, da falta de
chuvas por vários dias no referido mês). Os veranicos desarticulam
a vida dos mais simples e ampliam os domínios dos enrolões
de sempre, seja no interior ou na cidade. E bastam algumas torneirinhas
do céu mal se abrirem e águas invadem Primavera, Mocambinho,
São Paulo, Vila Pantanal, Santa Sofia, para não citar
toda a cidade em águas. Os ameaçadores Poti e Parnaíba
estão na casa dos desvalidos. Eu vi esses majestosos rios hoje,
28 de janeiro de 2004, como deveria ser normal observarmos. Agora, não
há quem se atreva aos rios, embora renitentes pescadores desobedecessem
a guarnição da piracema em suas redes antes de ontem no
Encontro dos Rios. Os barracos improvisados dos homens nos alagadiços
vão cair, eles não têm espaço, eles são
jogados ali propositadamente, os homens de poder e posses os impedem
altiplanos, lugares seguros, é a ordem que impõem, brincam
de animaizinhos nefastos, dizem: - Deixem aos tolos o alagadiço...
E a maioria desses que julgam tolos, são aqueles que foram expulsos
da zona rural pela sede e fome que também não compraz
resolver... Quando os rios ameaçarem de fato os negócios
dessa gente de poder, avançarem sobre os shoppings e condomínios
granfinos, talvez, enfim, amedrontem-se dos rios... E que respeito toda
essa gente, indistintamente, tem devotado aos mesmos rios que agora
os atormenta? Eu não saberia dimensionar tal resposta, embora
nutra o desejo de escangalhar uma condenação, fruto do
desmazelo de todos para com a natureza e o preciosismo que é
a estruturação dessa nossa vida em sociedade. Vejam os
rios em suas essências como estão agora, quanta energia
essencial representam. Vejam por seus olhos a si, reflitam a natureza,
o equilíbrio, o respeito ao próximo e tantas, tantas outras
questões. Reflitam a relação íntima que
nós e a nossa cidade tem com esses rios, como são inseparáveis.
Mas as chuvas cessarão, por certo cessarão. Quando tudo
voltar ao normal voltam à carga os homens construtores de mundos
em suas falácias... Nem comentei que muitas das piscinas que
existem são frutos de roubalheira... Mas o que importa observar,
roubar parece tão natural, a impunidade ratifica o comportamento
e ato. Não esqueçam que não discutimos aqui a solidariedade
humana, ela existe, eu sei, sabemos disso. Mas porque a natureza tem
respostas que nós não temos controle, deveria baixar a
bola de tantos orquestradores que insistem em macular o mundo e a própria
vida do homem... A vida continua. Ora! Se não!... - “Os
homens constroem piscinas em seus quintais e se acham tão graaandes”.
George Andrade. (26/01/2004).
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