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Na década de 70 do século próximo passado se iniciou
uma ocupação desordenada dos cerrados no Estado do Piauí
através da utilização de uma agricultura e pecuária
intensivas. Sem regras claras, muito do que se propunha realizar esvaiu-se
rapidamente, redundando em abandono de projetos e dívidas objeto
de realização de negócios escusos por conta dos
incentivos fiscais patrocinados pela Superintendência de Desenvolvimento
do Nordeste – SUDENE, intermediadas por bancos oficiais.
Nos anos 80 quase nada se efetivou junto ao cerrado, deixando claro
a impotência da sociedade local em utilizá-lo além
da pecuária extensiva praticada desde o início do processo
colonizador. Em meados da década, colonos vindos do sul do País
se instalaram na região sul do Estado e conseguiram estabelecer
uma produção regular de arroz resultante de parcerias
efetivadas com o estabelecido agronegócio exportador de soja
da região de Balsas/MA, embora os maiores empreendimentos estivessem
sujeitos a dificuldades de toda ordem gerados, principalmente, por uma
crescente dívida, incapacidade produtiva e dificuldades de escoamento
e comercialização da produção, o que levou,
via de regra, à falência dos projetos existentes e ao abandono
vergonhoso da terra, deixada nua, devastada, esgarçada.
Até meados da segunda metade da década de 90 os cerrados
piauienses estiveram nas discussões como fator de desenvolvimento,
entretanto, uma ação efetiva só veio acontecer
com a presença da empresa BUNGE ALIMENTOS S/A, quando todos os
projetos então abandonados foram reativados e outros novos se
instalaram rapidamente. A intervenção do Governo do Estado
do Piauí ao oferecer subsídios (A Bunge Alimentos tem
um incentivo de 15 anos de isenção fiscal) para instalação
de indústria de beneficiamento de soja dessa referida empresa,
junto com a falta de um plano gestor de ocupação dos cerrados
e pela prática viciosa de licenciamentos e fiscalização
ambientais, através da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e
IBAMA, transformou o cerrado piauiense na bola da vez para a prática
dos mais absurdos desmandos contra a natureza: falta de EIA/RIMA, licenciamentos
e desmatamentos irregulares, grilagem de terras, concentração
de renda, expulsão do homem do campo, inchaço das cidades
e exclusão social. Neste momento foi criado o jargão da
“última fronteira agrícola do Brasil”. Esta
inserção ideológica fez com que o processo de ocupação
se desse de uma forma muito mais violenta em decorrência da implantação
de uma idéia de que os cerrados do Piauí estavam isolados
e sem nenhuma presença humana. Fato que contrasta diretamente
com a realidade.
A falta de políticas públicas e de efetivas decisões
políticas adotada pelo Estado em todos os níveis contribuiu
e contribui decisivamente para uma situação de ingerência
na utilização dos recursos naturais. A desatenção
oficial permite evidentes desobediências à legislação
ambiental, fato que provoca o uso indevido e predatório dos cerrados,
não protege Áreas de Preservação Permanente,
não estabelece com segurança biológica as Reservas
Legais e não define as indispensáveis Unidades de Conservação.
O estigma de uma última fronteira agrícola a ser explorada
perfaz o imaginário a enganar desavisados, posto que o agronegócio
instalado é concentrador de terra e renda e gerador de problemas
sócio-ambientais graves, desde a desertificação
e extinção de espécies, a favelização
da vida nas cidades. Com ela repete-se a política do negócio
colonial executado pela Companhia das Índias Ocidentais.
O modelo agro-industrial que se instala na região não
prioriza a inclusão social do homem piauiense e promove o êxodo
rural (em Uruçuí 90% da população está
na sede do município), a consolidação do sub-emprego
em atividades tarefeiras sem vínculo à seguridade social,
em condições sub-humanas, de sub-escravidão, concentra
a renda e agrega substancial aumento no custo de vida da região.
De acordo com o plano de investimentos, a Bunge Alimentos fez um investimento
de 420 milhões para construção da unidade de processamento
de grãos em Uruçuí – PI e gerou apenas 60
empregos diretos. Atualmente um trabalhador rural recebe 80 centavos
para cortar um metro cúbico de lenha que é vendida a 25
reais para a Bunge.
Os Estudos de Impactos Ambientais dos empreendimentos localizados nos
cerrados piauienses têm se mostrado sem consistência técnica,
não atendem as exigências legais, não apresentam
diagnósticos precisos e assim, não contribuem para impedir,
mitigar ou compensar os processos de degradação ambiental
que ocorrem na macro-região, corroboram para a destruição
da flora e fauna nas áreas ocupadas, com prejuízos significativos
nos solos desmatados, redução de recarga de lençol
freático, promovendo maior escorrimento superficial, provocando
erosões, comprometendo a qualidade da água dos rios, reduzindo
a produção de água nas nascentes e afetando o clima
regional, o que configura situação a provocar imenso impacto
ambiental negativo. A Bunge Alimentos sequer produziu um RIMA; a empresa
Graúna, fornecedora de lenha para a Bunge não fez o EIA/RIMA
e mesmo assim teve suas atividades licenciadas pela Secretaria Estadual
do Meio Ambiente e IBAMA.
Em decorrência da situação de descumprimento da
legislação ambiental, a Fundação Águas
(FUNAGUAS), o Ministério Público Federal e Estadual (Curadoria
do meio Ambiente) ajuizaram uma Ação Civil Pública
contra a Bunge Alimentos, Governo do Estado, IBAMA e empresa Graúna.
Uma decisão da Des. Selene Maria de Almeida do TRF 1a. região
atendendo a Agravo de Instrumento da FUNAGUAS, decidiu pela suspensão
da utilização da lenha como matriz energética (pela
Bunge Alimentos) e do corte da lenha pela empresa Graúna. Os
agravados recorreram da decisão junto ao STJ.
Conclui-se que falta um modelo de Gestão Ambiental que ofereça
um eficiente Plano de Manejo para a conservação (uso direto
sustentável) e a preservação (uso indireto em grande
áreas protegidas) dos cerrados piauienses. Os cerrados piauienses
são únicos no Brasil por serem primitivos e por ocupar
grande extensão entre a Caatinga e a Pré-Amazônia
Maranhense, constituindo ambiente ecotonal de inestimável valor
biológico, podendo-se afirmar que serão muito valorizados
como banco de germoplasma para a biotecnologia, hoje a mais avançada
das ciências.
Tendo em vista, pois, este diagnóstico sobre a situação
dos Cerrados do Piauí, propomos a implantação de
um modelo de Gestão Ambiental tecnicamente formulado que seja
discutido por toda a sociedade e que contemple um macro-zoneamento ecológico-sócioeconômico
visando a construção de sociedades sustentáveis,
objeto da Carta dos Cerrados, emitida como resultado do I ENCONTRO SOBRE
CERRADOS: OCUPAR COM SUSTENTABILIDADE, ocorrido na cidade de Uruçuí/PI,
em setembro/2003, ainda não superado, onde possam estar garantidos
os seguintes aspectos:
- Criação
e implantação de Unidades de Conservação,
incluindo Parques Estaduais, Estações Ecológicas,
Reservas Biológicas e Reservas Extrativistas, para conservação
e preservação da Biodiversidade;
- Proteção
efetiva dos rios e demais cursos d’águas com a conservação
das nascentes e matas ciliares;
- Efetivação
das pesquisas básicas para orientação das atividades
de manejo ambiental, prevendo-se um programa de recuperação
de áreas desmatadas empregando-se espécies nativas e enriquecimentos
de espécies frutíferas, espécies ameaçadas,
possibilitando o extrativismo conservacionista;
- Implantação
de projetos de convivência com os Cerrados com base em estudos
histórico-antropológico-culturais, protegendo-se a fauna,
a flora, os solos e os recursos hídricos, principalmente nas
veredas ou baixões onde se concentram os pequenos agricultores;
- Planejamento
ambiental para delimitação de áreas de desmatamentos,
mantendo-se os Corredores Ecológicos de Cerrados, integrando-se
os ambientes de chapadas e veredas ou baixões;
- Desenvolvimento
de programas efetivos dos governos para fiscalização e
monitoramento do bioma dos Cerrados;
- Aumento
da porcentagem de Reserva Legal nas propriedades agrícolas, visando
a proteção da biodiversidade junto das monoculturas e
a conservação dos cerrados piauienses;
- Desenvolvimento
em larga escala, nas áreas urbanas e rurais, de eficientes programas
de Educação Ambiental, com o treinamento e valorização
dos Professores e fornecimento de equipamentos para as escolas;
- Criação
de Banco Genético como reserva de germoplasma de espécies
dos Cerrados, como o objetivo de produção de sementes
e mudas para o fomento dos processos de recuperação dos
Cerrados.
A maior
riqueza dos Cerrados é a sua Biodiversidade, por ela, somente
através dela, pelo seu uso direto racional sustentável
nas áreas antrópicas e pelo seu uso indireto nas áreas
de preservação, é possível se alcançar
a evolução natural deste bioma e o desenvolvimento sustentável
da região, promovendo a inserção dos diversos atores
na construção de novas relações com a natureza,
priorizando a justiça social.
Fundação
Águas do Piauí - FUNAGUAS
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